Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, celebramos as mulheres que moldaram o mundo tecnológico em que vivemos. Sem elas, não haveria software, não haveria Wi-Fi, nem Internet, não haveria aterragem na Lua (alunagem). E, no entanto, a maioria de nós nunca ouviu os seus nomes.
Introdução
O mito
Quando pensamos nos grandes nomes da tecnologia, pensamos quase instintivamente em homens: Steve Jobs, Bill Gates, Alan Turing, Mark Zuckerberg. É um reflexo condicionado por décadas de narrativas que colocaram os homens no centro da revolução digital e que relegou as mulheres para notas de rodapé, quando muito.
A verdade
A história da computação e da tecnologia foi, desde o início, também uma história de mulheres. Mulheres que escreveram o primeiro algoritmo, que programaram os primeiros computadores, que inventaram a base tecnológica do Wi-Fi, que calcularam as trajetórias que levaram a o homem (e não a mulher) à Lua, e que criaram os protocolos que fazem a Internet funcionar.
Este artigo é uma homenagem a essas heroínas. Não por cortesia, não por quota, mas porque a justiça histórica e tecnológica assim o exige. Conheça as mulheres que construíram o mundo digital e que o fizeram, quase sempre, contra todas as probabilidades e, não raro, contra o ambiente masculino.
1815 – 1852
Ada Lovelace – A primeira programadora da história
Comecemos pelo princípio. Augusta Ada King, Condessa de Lovelace, filha do poeta Lord Byron, é amplamente reconhecida como a primeira pessoa a escrever um algoritmo destinado a ser executado por uma máquina. E note-se: não a primeira mulher — a primeira pessoa!
Em 1843, ao traduzir e anotar um artigo sobre a Máquina Analítica de Charles Babbage, Ada Lovelace fez algo que ninguém havia antes feito: descreveu um conjunto de instruções para calcular os números de Bernoulli, criando aquilo que hoje reconhecemos como o primeiro programa informático da história! Mas a sua visão ia muito além. Lovelace antecipou que os computadores poderiam um dia ser utilizados para compor música, produzir gráficos e realizar tarefas muito para lá do simples cálculo numérico: uma intuição absolutamente visionária (e extraordinária) para o século XIX.
Não é por acaso que uma das linguagens de programação mais utilizadas em sistemas militares e de aviação se chama “Ada”, em sua homenagem.
1906 – 1992
Grace Hopper – A almirante que ensinou os computadores a falar
Se Ada Lovelace escreveu o primeiro programa, Grace Murray Hopper tornou possível que milhões de pessoas programassem depois dela. Doutorada em Matemática pela Universidade de Yale, Hopper abandonou uma cátedra universitária no Vassar College para se alistar na Reserva Naval dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Foi atribuída ao projeto do Harvard Mark I, um dos primeiros computadores eletromecânicos, onde se tornou uma das primeiras três pessoas a programá-lo. Escreveu o manual de utilização completo, com 561 páginas, embora o seu nome não tenha sido identificado na publicação.
Mas o contributo mais revolucionário de Hopper veio mais tarde: em 1952, desenvolveu o primeiro compilador da história (o A-0), um programa que traduzia código escrito em linguagem próxima do Inglês para linguagem de máquina. A ideia foi inicialmente ridicularizada; disseram-lhe que computadores não poderiam compreender palavras. Hopper não desistiu e a sua equipa criou o FLOW-MATIC, a primeira linguagem de programação a usar comandos em Inglês, que por sua vez serviu de base para o COBOL, uma das linguagens mais utilizadas na história da computação empresarial.
Hopper também popularizou o termo “debugging” (correção de erros em software) após a célebre descoberta de uma traça (em inglês, bug) que causou uma avaria no computador Mark II. Reformou-se da Marinha como contra-almirante, aos 79 anos, sendo na altura a oficial mais velha em serviço ativo nas Forças Armadas dos Estados Unidos. Em 2016, recebeu postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade.
n. 1936
Margaret Hamilton – O código que salvou a aterragem na Lua
Margaret Hamilton foi diretora da Divisão de Engenharia de Software do MIT Instrumentation Laboratory, responsável pelo desenvolvimento do software de bordo das missões Apollo da NASA. Liderou a equipa que escreveu o código de navegação e controlo dos módulos de comando e lunar. A famosa fotografia de Hamilton ao lado de uma pilha de listagens de código mais alta do que ela tornou-se um ícone da era espacial.
O momento mais dramático ocorreu a 20 de Julho de 1969, três minutos antes da aterragem da Apollo 11 na Lua. Alarmes inesperados dispararam! O computador de bordo estava sobrecarregado com dados de um radar desnecessariamente ativado. Graças ao sistema de priorização que Hamilton e a sua equipa haviam programado, o software foi capaz de eliminar as tarefas menos importantes e concentrar-se naquilo que realmente importava: a alunagem. Sem esse software, a missão Apollo 11 teria provavelmente abortado, facto bastante desconhecido.
Hamilton cunhou o próprio termo “engenharia de software” (software engineering), numa época em que o desenvolvimento de programas era visto como uma actividade menor face à engenharia de hardware. Em 2016, o Presidente Barack Obama atribuiu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, dizendo na cerimónia que os astronautas não tinham muito tempo, mas felizmente tinham Margaret Hamilton.
1918 – 2020
Katherine Johnson – A matemática que os astronautas recusavam substituir
Se alguma vez viu o filme Hidden Figures (Elementos Secretos), conhece parte desta história. Katherine Johnson foi uma matemática afro-americana cuja genialidade com os números a levou a tornar-se uma das pessoas mais indispensáveis do programa espacial americano, e tal em plena era de segregação racial e discriminação de género.

Contratada em 1953 pela NACA (antecessora da NASA) como “computador humano”, Johnson foi atribuída à secção West Area Computers, segregada racialmente. Apesar de todas as barreiras, a sua competência era tão excepcional que rapidamente passou a trabalhar diretamente com engenheiros de voo, algo inédito para uma mulher negra na época.
Johnson calculou a trajetória do voo de Alan Shepard, o primeiro americano no espaço, em 1961. Mas o episódio mais emblemático da sua carreira ocorreu em 1962: quando a NASA começou a usar computadores eletrónicos da IBM para calcular a órbita de John Glenn, o astronauta recusou-se a embarcar antes que Katherine Johnson verificasse pessoalmente os cálculos da máquina. Glenn pediu aos engenheiros para chamarem “a rapariga”, e só voou depois de Katherine confirmar que os números estavam corretos.
Os seus cálculos foram igualmente essenciais para a primeira alunagem em 1969. Trabalhou na NASA durante 33 anos e recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade em 2015. Faleceu em 2020, aos 101 anos.
1914 – 2000
Hedy Lamarr – A estrela de Hollywood que inventou a base do Wi-Fi
Hedwig Eva Maria Kiesler, conhecida pelo mundo como Hedy Lamarr, foi considerada “a mulher mais bonita de Hollywood” nos anos 1930 e 1940. O que quase ninguém sabia é que, entre filmagens, Lamarr era inventora.
Nascida em Viena numa família judaica, Lamarr fugiu de um casamento com um fabricante de munições simpatizante do regime nazi e chegou a Hollywood em 1937. Durante a Segunda Guerra Mundial, preocupada com a vulnerabilidade dos torpedos rádio-guiados dos Aliados à interferência inimiga, concebeu uma solução engenhosa: um sistema de comunicação secreta baseado na mudança rápida e sincronizada de frequências de rádio, o chamado frequency hopping (salto de frequência).
Em colaboração com o compositor de vanguarda George Antheil, Lamarr patenteou o sistema em 1942 (Patente US 2,292,387). A ideia baseava-se numa analogia com pianos sincronizados: transmissor e receptor mudavam de frequência em simultâneo, seguindo um padrão pré-definido, tornando o sinal praticamente impossível de interceptar ou bloquear.
A rejeição
A Marinha dos Estados Unidos rejeitou a invenção durante a guerra, sugerindo a Lamarr que esta seria mais útil a vender obrigações de guerra usando a sua fama. A tecnologia só foi adotada militarmente décadas depois, durante a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962.
O legado tecnológico
O princípio do spread spectrum que Lamarr e Antheil conceberam tornou-se a base tecnológica de sistemas que hoje usamos quotidianamente: Wi-Fi, Bluetooth e GPS.
O reconhecimento tardio
Lamarr e Antheil nunca receberam compensação financeira pela sua invenção. Só em 1997, a Electronic Frontier Foundation reconheceu o seu contributo, e em 2014 — catorze anos após a sua morte — Lamarr foi admitida postumamente no National Inventors Hall of Fame.
ENIAC — 1946
As programadoras do ENIAC – As seis mulheres que inventaram a programação moderna
A história da computação tem muitos capítulos invisíveis, mas poucos são tão flagrantemente injustos como este. O ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer), construído durante a Segunda Guerra Mundial, foi o primeiro computador eletrónico digital de uso geral. A sua programação foi inteiramente realizada por seis mulheres:
Jean Jennings Bartik
Betty Holberton
Ruth Lichterman Teitelbaum
Kathleen McNulty Mauchly Antonelli
Marlyn Wescoff Meltzer
Frances Bilas Spence
Estas mulheres foram contratadas como “computadores humanos”: como matemáticas que faziam cálculos balísticos para o Exército. Quando o ENIAC ficou operacional, foram elas que tiveram de descobrir como programá-lo, sem manuais, sem linguagens de programação, e sem sequer poderem ver a máquina nas fases iniciais. Criaram métodos de programação usando diagramas lógicos e interruptores físicos, inventando literalmente a prática da programação de computadores.
Quando o Exército apresentou o ENIAC ao público em Fevereiro de 1946, as fotografias oficiais mostravam as mulheres ao lado da máquina. Mas nenhuma foi apresentada ou creditada. Os engenheiros que construíram o hardware foram celebrados; as mulheres que o tornaram funcional foram ignoradas. Conforme Betty Holberton recordou mais tarde, nenhuma delas foi convidada para o jantar de celebração.
Betty Holberton, em particular, teve uma carreira notável: criou o primeiro código de instruções, inventou a primeira rotina de ordenação de dados (sort), e colaborou com Grace Hopper no desenvolvimento da linguagem de programação COBOL. Foi também ela quem sugeriu que os computadores fossem fabricados em tons de bege, uma convenção que durou décadas.
O reconhecimento das programadoras do ENIAC só chegou nos anos 1980, graças ao trabalho de investigação de Kathy Kleiman, que documentou as suas contribuições no livro Proving Ground e no documentário The Computers.
1933 – 2011
Annie Easley – A engenheira de foguetões que abriu portas
Annie Easley foi uma das primeiras mulheres afro-americanas a trabalhar na NASA, numa época em que ser negra e mulher numa instituição científica americana era enfrentar uma dupla barreira quase intransponível.
Contratada em 1955 pela NACA como “computador humano”, Easley era uma de apenas quatro pessoas afro-americanas entre 2500 funcionários. Quando os computadores eletrónicos substituíram os computadores humanos, Easley não se deixou ultrapassar: aprendeu a programar em Fortran e noutras linguagens, e desenvolveu código utilizado em sistemas de conversão de energia e tecnologia de propulsão alternativa.
O seu trabalho na tecnologia de baterias foi utilizado nos primeiros veículos híbridos, e os seus contributos para o projeto do foguete Centaur foram essenciais para futuras missões espaciais. Paralelamente à sua carreira técnica, Easley serviu como conselheira de igualdade de oportunidades na NASA, ajudando a combater a discriminação de género, de raça e de idade.
n. 1951
Radia Perlman – A “Mãe da Internet” que recusa o título
A engenheira de redes e cientista da computação Radia Perlman é frequentemente chamada de “Mãe da Internet”, título que ela própria rejeita, observando que a Internet não foi inventada por uma única pessoa. Mas o seu contributo é inegável.
Doutorada em Ciências da Computação pelo MIT, Perlman inventou o Spanning Tree Protocol (STP), o algoritmo que permitiu que as redes Ethernet escalassem de centenas de nós num único edifício para redes massivas que se estendem pelo mundo inteiro. Sem o STP, a Internet tal como a conhecemos simplesmente não funcionaria.
Perlman detém mais de 100 patentes nos Estados Unidos, foi admitida no Internet Hall of Fame e na National Academy of Engineering, e contribuiu também para o protocolo TRILL, uma evolução do STP para centros de dados modernos. A sua abordagem é admirável na sua modéstia: numa das suas frases mais conhecidas, afirmou que o melhor design tecnológico é aquele que ninguém nota: as coisas simplesmente funcionam.
Outras heroínas que merecem ser referidas
A lista de mulheres que moldaram a tecnologia é muito mais longa do que um único artigo pode abranger. Entre tantas outras que merecem menção, destacam-se:
Joan Clarke (1917-1996)
Criptanalista britânica que trabalhou em Bletchley Park na descodificação da máquina Enigma nazi, ao lado de Alan Turing, e cuja contribuição para o esforço de guerra foi durante décadas mantida em segredo.
Frances Allen (1932-2020)
Cientista da computação que se tornou a primeira mulher a receber o Prémio Turing, o equivalente ao Nobel da informática, em 2006, pelos seus contributos pioneiros na otimização de compiladores que revolucionaram a eficiência do código.
Dame Stephanie “Steve” Shirley (n. 1933)
Empreendedora britânica que, em 1962, fundou uma empresa de software que empregava quase exclusivamente mulheres, muitas a trabalhar a partir de casa, algo revolucionário para a época. Para contornar o preconceito de género, assinava a correspondência comercial como… “Steve”.
Gladys West (n. 1930)
Matemática afro-americana cujos cálculos geodésicos, realizados no Laboratório de Armas Navais dos Estados Unidos a partir de 1956, foram fundamentais para o desenvolvimento do GPS.
Marian Croak
Inventora do Voice over Internet Protocol (VoIP), a tecnologia que permite fazer chamadas e videoconferências através da Internet. Detém mais de 200 patentes e trabalha atualmente na Google.
Implicações para o presente – e para o Direito
Para os leitores do JurisTech.pt, estas histórias não são apenas curiosidades históricas. Carregam lições diretamente relevantes para o presente, para futuro, e para o Direito.
Viés algorítmico e discriminação de género na tecnologia
Em primeiro lugar, a questão do viés algorítmico e da discriminação de género na tecnologia – tema do artigo que também publicámos hoje, Dia Internacional da Mulher, Quando o Algoritmo Discrimina – ganha uma dimensão mais profunda quando percebemos que as mulheres não são recém-chegadas à tecnologia. Foram pioneiras, mas também ignoradas ou até apagadas da história, e agora os sistemas que outros construíram sobre os seus alicerces frequentemente as discriminam. Há aqui uma ironia cruel a assinalar.
O EU AI Act e o quadro regulatório europeu
Em segundo lugar, o EU AI Act (Regulamento UE 2024/1689) e o quadro regulatório europeu para a inteligência artificial devem ser lidos também à luz desta história. A exigência de equipas diversificadas no desenvolvimento de sistemas de IA de alto risco (art. 9.º, n.º 8) e a proibição de discriminação algorítmica (art. 5.º, n.º 1, alínea f)) não surgiram no vazio; são respostas a décadas de exclusão e discriminação femininas.
O recado para advogados e advogadas portugueses
Para os advogados e advogadas portugueses, o recado é claro: quando assessoram clientes no desenvolvimento ou implementação de sistemas de IA, devem estar atentos não apenas ao cumprimento formal da lei, mas também às dinâmicas de género que podem estar incorporadas de forma invisível nos dados de treino, nos algoritmos e nos processos de decisão automatizada.
Conclusão
Ada escreveu o primeiro programa. Grace ensinou os computadores a falar. Margaret salvou a aterragem na Lua. Katherine fez os cálculos que nenhum computador podia verificar sozinho. Hedy inventou a base do Wi-Fi. As mulheres do ENIAC criaram a programação moderna. Annie construiu foguetões. Radia fez a Internet funcionar.
Nenhuma destas mulheres pediu reconhecimento. A maioria trabalhou durante décadas antes de receber qualquer crédito. Algumas nunca o receberam em vida.
A melhor forma de as homenagear não é apenas contar as suas histórias. É garantir que o mundo que elas ajudaram a construir não repita os erros que as silenciou. Neste Dia Internacional da Mulher, que a memória destas heroínas nos inspire a construir uma tecnologia mais justa, mais diversa e mais humana e, porque não, mais feminina.

